Madame C. Volange

in SCRAPeando

O conteúdo daquele scrap era contundente: “Quero tê-la”, dizia nas nove letras deixadas no meu Orkut. Minha primeira reação foi investigar a pessoa que deixara aquela mensagem pública na página de relacionamentos da internet, o Orkut. Ele assinava como “Cavalheiro”, tão-somente; por isso, este meu pseudônimo de “Madame” usado aqui neste texto; o resto do meu nick, que fique à vontade o leitor acreditar ou não.

Interessei-me pela figura e fui à devassa: no seu álbum de fotos do Orkut havia uma única foto, de perfil, com uma capa e chapéu, só deixando à mostra seus olhos castanhos; o resto estava escondido no preto da roupa e da sombra, perfeitamente colocadas para encobrir o que não queria ser mostrado. “Foto de profissional”, pensei. Porém, fui ao que mais me interessava: suas comunidades. Ele fazia parte de 18 comunidades do Orkut. Das nove que aparecem na primeira página, quatro chamaram ainda mais a atenção – eram eróticas, ou, até mesmo pornográficas, o que destoava um pouco da imagem que fazia de um “cavalheiro à moda antiga”.

Eram elas: “Gosto de comer de quatro”, onde mostrava uma mulher, obviamente na posição indicada pelo título; “Cinta-liga”, que indicava um par de pernas vestidas com esta peça íntima tão famosa (devo confessar que para escrever este texto coloquei a minha preferida); “Oral”, apesar de o título ser dúbio, a foto de uma boca feminina carnosa e um tanto borrada, indicava qual o sentido da comunidade; a seguinte, assustou-me, mas também me deixou excitada: “Sadomasoquismo”. Não que eu seja adepta, mas sempre gostei de coisas diferentes no sexo, porém, os homens que encontrei, e que se deitaram na minha cama, pouco diferenciavam do resto da humanidade que pertence ao sexo masculino, infelizmente. Sei que sou “saidinha”, até dou umas dicas para o cara – se ele merecer –, mas queria ser surpreendida, coisa rara nestes quase trinta anos de minha vida bem vivida.

Após esta detalhada pesquisa, onde passei por todas as comunidades que me interessaram, percebi que o Cavalheiro realmente tinha me chamado a atenção. Sua descrição no Orkut era simples e direta, assim como foi seu scrap: “Sou um homem. E quero você”. Sei que esta mensagem poderia ser lida por qualquer uma, e até procurei nos profiles “amigos” dele, querendo saber se ele já tinha deixado alguma mensagem parecida para alguma daquelas mulheres; nenhuma, parecia, tinha recebido tal proposta. Eu fora a única, comemorei internamente. Minha resposta foi de igual proporção: “Vai ter que se esforçar um pouco mais”. Meia hora depois, a tréplica: “Diga quão esforçado que terei de ser, que eu serei”.

Engatamos numa “conversa” através dos scraps. Nenhum dos dois queria evoluir para outra coisa, como o MSN, por exemplo. Estávamos contentes com aquela conversa “pública”, pois quem quisesse, poderia saber o teor completo dela, bastando para isso, acessar nossos profiles. “Pelo menos, posso saber quem é o senhor? Daí, talvez, poderei dizer o quão esforçado este cavalheiro deve ser”, eu disse.

Os scraps continuaram e foram madrugada adentro. Lá pelas três e meia da manhã, após muita putaria on-line (eu já o conhecia tanto como ele me conhecia – apesar dele ainda ser um anônimo), tocou minha campainha; fui, meio assustada até a porta, e, pelo olho-mágico, vi um papel com a frase escrita: “O cavalheiro pode entrar?”. Quando retirou o papel, reconheci, finalmente, meu cavalheiro: era meu vizinho nerd, do apartamento ao lado. Porém, o tesão falou mais alto, e eu e o nerd aproveitamos até o dia amanhecer. De vez em quando, ele manda um scrap perguntando se eu quero seus “serviços”. Até agora, não recusei nenhum.

 

Madame Volange tem 29 anos. Já foi punk, metaleira e até de pagode já gostou, mas hoje, leva uma vida regrada à festas onde o prazer fala mais alto. Virou hedonista aos 25 anos, depois de alguns namoros e um quase casamento. Vive entre litoral catarinense e São Paulo. Também é escritora iniciante e uma leitora voraz, principalmente de literatura do século 19. Seu livro de cabeceira é “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.

voyeur

foto de Ippolit Matveevich Skorobeynikov

~ por pornografo em 25 novembro, 2007.

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